Nos gostamos muito. Não me envergonho de dizer que eu a amo. Vamos sempre juntas para a faculdade, romanticamente apreciando a baía defronte o Caminho Niemeyer. Quando preciso ir ao mercado ela sempre quer ir junto. Fomos ao Cine Arte UFF nesta segunda e é claro, fomos juntinhas. E nos divertimos muito.

 

Inseparáveis nós somos. E nem damos bola para os ônibus, preferimos sempre ir só nós duas, à vontade. Somos mais nós, vamos devagar mais chegamos lá!

Já fomos juntas para muitos lugares de Niterói… Essa cidade é boa por isso, não tem preconceito contra nós! Infelizmente já sofremos alguns ataques daqueles que não nos entendem e têm até raiva da gente, mas sabemos que a beleza do mundo está na diversidade, e continuamos sempre juntas. Inseparáveis. A não ser que chova muito.

 

Eu e minha bicicleta somos amigas inseparáveis.

 

Moni e sua amiga, Danete na praça do Gragoatá.

Moni e sua amiga, Danete na praça do Gragoatá.

Estamos em setembro. E hoje é dia 8. Dia do meu aniversário.

Com preguiça olho para os vidros da janela e me encanto com os botões branquinhos da pitangueira e os pontinhos rosados e negros da amoreira. Estão pontilhados de cristais brilhantes do sereno e da chuva, pulverizadas em noite de lua crescente.

Me espreguiço. Olho o relógio. Perdi a hora da faculdade. Calço os chinelos azuis e já me levanto sem pressa. Almir Sater me vem à cabeça… “Ando devagar porque já tive pressa…”

O capim limão faz um lindo contraste com as rubras açucenas. Lá em baixo a mangueira também mostra-se exuberante a expor sem segredos a quantidade de frutos que teremos em dezembro. A gata se enrosca nos pés pedindo o de costume.Voltando os olhos ao jardim noto o adiantado da hora vendo as minhas onze horas multicoloridas que já estão se despedindo. Descubro pés de tomate que nasceram espontâneos. A aloé tombou de lado, cheia de folhas gordas e pesadas.

O coqueiro cresceu bastante neste inverno. Veja como a goiabeira está triste! Mas a poda lhe fará bem mais adiante, quando vier as flores e os frutos. E mais brotos da bananeira se esgueiram. Pena que só teremos frutos novamente no porvir.

Abro enfim a janela e o vento úmido e terroso acaricia a face num misto de odor, tato e prazer. O siguiriri e a cambaxirra cantando agudo, fazem festa alternadamente, tilintando entre o mamoeiro e a poça d’água. Já parece primavera. O galo canta, todo macho. Ouço a galinha cacarejar feliz. Sei o que eles andam fazendo. Será que hoje teremos ovos?

Da cozinha vem um cheiro atávico de café com cremely e canela com torradas francesas. Agilizo os movimentos, me vestindo com mais rapidez na intenção de colher destes sabores.

Paro por um momento. Fecho os olhos e penso. Em um segundo tudo aquilo que me veio aos olhos, sentidos e memória, se desfaz em brumas de vapor. A mente da gente é impressionante. Me volto pra realidade sentindo os pés descalços no piso frio e me pergunto: o que teria hoje para comemorar?

Completo tantos anos que não caberia em velas num bolo. Me sinto só no mundo, apesar de estar rodeada de familiares e amigos. Ideais? Tenho muitos, mas não saíram ainda do plano das idéias. Vontades, tenho tantas! Algumas indizíveis e por isso ficam só na vontade…

Sonhar também. Sonho muito. Até demais. Ás vezes acho que fabrico um mundo que não existe e que por ser só meu, jamais será pra todos.

Calço de novo os chinelos e com os pés aquecidos, percebo. Viver! Hoje eu comemoraria somente isso. Mais um dia em que acordo olhando pela janela, percebendo tudo aquilo que não entendo, mas que ainda assim, insisto em tentar entender, todos os dias.

Na babosa a teia de aranha cresce. No fim da rua, um cachorro insistente reclama.

E a chuva volta a cair…. 

A aranha tece...

A aranha tece...

No dia 21 de setembro acontecerá na orla de Copacabana, a Caminhada “Eu tenho fé”.  
 

Já que a proposta do evento é trazer à tona o conceito de intolerância religiosa e levar as discussões em torno do tema a todos os níveis, adentro eu nesta seara.

O evento foi promovido pelas entidades representantes das religiões afro-descendentes e apoiado por diversas outras instituições, tendo em vista acontecimentos recentes de invasões de templos e agressões aos seus representantes religiosos sofridas por estas entidades e feitas por pessoas desequilibradas.

Eu como pertencente a uma tradição de origem cigana, a Florescentia, estudiosa das religiosidades da terra, mais conhecidas como neo-paganismo e bastante ligada ao ceticismo como filosofia de vida, me senti um pouco rechaçada. Afinal, porquê é tão importante ter fé? Porque estas instituições não se uniram a outras religiões igualmente descaracterizadas frente ao catolicismo sub-reptício brasileiro e que são muito menos representativas?

Assim como toda idéia de liberdade, a liberdade de culto pressupõe a possibilidade de cultuar OU NÃO cultuar!

Em minha tradição, de base pagã, a fé é descartada como preceito e tudo é posto em seu devido estado, lugar e poder. Assim como no paganismo, não necessariamente se pressuponha a fé como virtude máxima. Para o cético, fé é xingamento.

Então, como ficamos nós, os neo-pagãos, os agnósticos, os céticos e os ateus? Não merecemos respeito e tolerância? Considerar como não merecedores de respeito ‘religioso’ os não religiosos ou os pertencentes a religiões verdadeiramente minoritárias, não seria uma forma às avessas de intolerância religiosa?

Temos observado, e no site do evento mostra, a intolerância ser praticada por pessoas. Mas e quando a intolerância é praticada por outras instituições?

Podemos imaginar que não foi uma pessoa que promoveu em 2007 uma campanha feita com outdoors, espalhados por toda a cidade de Niterói, conforme a foto abaixo, tirada da ponte Rio-Niterói.

Intolerância religiosa na ponte Rio-Niterói

Intolerância religiosa na ponte Rio-Niterói

 

 

 

Não foram as religiões afro-descendentes, por exemplo, que foram alvo de preconceito e intolerância feita pelo MV BRASIL, que no ano retrasado instituiu um ‘campanha nacional’ contra o Halloween, festa que tem origem na religião pagã, conforme se vê na foto.

Preconceito religioso num pais que se diz laico...

Preconceito religioso num país que se diz laico...

 

 

 

Ambas as agressões intolerantes foram promovidas por instituições e passaram despercebidas da mídia como ato de fundamentalismo, confirmando publicamente a visão (nada velada) de que ter FÉ é sinônimo de ser gente. Como se o fato de não termos fé nos tornasse menos humano….

 

Essa é a mais furiosa onda que perdura na civilização humana a despeito das mais básicas leis fundamentais, da ética e de toda racionalidade, evolução e tecnicismo:

“O que não é igual é inimigo. Guerra ao inimigo!!”

 

Que haja paz na diversidade.

Eu não tenho fé.

 

 

Em homenagem à minha baba (avó) Floripes Hamoniviqs, Mestra Jardineira Anciã da Tradição Florescentia de origem Pagano-Tziganim, hoje com 104 anos e quem sempre ensinou que o outro não é nosso espelho.