No dia 21 de setembro acontecerá na orla de Copacabana, a Caminhada “Eu tenho fé”.

Já que a proposta do evento é trazer à tona o conceito de intolerância religiosa e levar as discussões em torno do tema a todos os níveis, adentro eu nesta seara.

O evento foi promovido pelas entidades representantes das religiões afro-descendentes e apoiado por diversas outras instituições, tendo em vista acontecimentos recentes de invasões de templos e agressões aos seus representantes religiosos sofridas por estas entidades e feitas por pessoas desequilibradas.

Eu como pertencente a uma tradição de origem cigana, a Florescentia, estudiosa das religiosidades da terra, mais conhecidas como neo-paganismo e bastante ligada ao ceticismo como filosofia de vida, me senti um pouco rechaçada. Afinal, porquê é tão importante ter fé? Porque estas instituições não se uniram a outras religiões igualmente descaracterizadas frente ao catolicismo sub-reptício brasileiro e que são muito menos representativas?

Assim como toda idéia de liberdade, a liberdade de culto pressupõe a possibilidade de cultuar OU NÃO cultuar!

Em minha tradição, de base pagã, a fé é descartada como preceito e tudo é posto em seu devido estado, lugar e poder. Assim como no paganismo, não necessariamente se pressuponha a fé como virtude máxima. Para o cético, fé é xingamento.

Então, como ficamos nós, os neo-pagãos, os agnósticos, os céticos e os ateus? Não merecemos respeito e tolerância? Considerar como não merecedores de respeito ‘religioso’ os não religiosos ou os pertencentes a religiões verdadeiramente minoritárias, não seria uma forma às avessas de intolerância religiosa?

Temos observado, e no site do evento mostra, a intolerância ser praticada por pessoas. Mas e quando a intolerância é praticada por outras instituições?

Podemos imaginar que não foi uma pessoa que promoveu em 2007 uma campanha feita com outdoors, espalhados por toda a cidade de Niterói, conforme a foto abaixo, tirada da ponte Rio-Niterói.

Intolerância religiosa na ponte Rio-Niterói

Intolerância religiosa na ponte Rio-Niterói

Não foram as religiões afro-descendentes, por exemplo, que foram alvo de preconceito e intolerância feita pelo MV BRASIL, que no ano retrasado instituiu um ‘campanha nacional’ contra o Halloween, festa que tem origem na religião pagã, conforme se vê na foto.

Preconceito religioso num pais que se diz laico...

Preconceito religioso num país que se diz laico...

Ambas as agressões intolerantes foram promovidas por instituições e passaram despercebidas da mídia como ato de fundamentalismo, confirmando publicamente a visão (nada velada) de que ter FÉ é sinônimo de ser gente. Como se o fato de não termos fé nos tornasse menos humano….

Essa é a mais furiosa onda que perdura na civilização humana a despeito das mais básicas leis fundamentais, da ética e de toda racionalidade, evolução e tecnicismo:

“O que não é igual é inimigo. Guerra ao inimigo!!”

Que haja paz na diversidade.

Eu não tenho fé.

Em homenagem à minha baba (avó) Floripes Hamoniviqs, Mestra Jardineira Anciã da Tradição Florescentia de origem Pagano-Tziganim, hoje com 104 anos e quem sempre ensinou que o outro não é nosso espelho.