Já que a proposta do evento é trazer à tona o conceito de intolerância religiosa e levar as discussões em torno do tema a todos os níveis, adentro eu nesta seara.
O evento foi promovido pelas entidades representantes das religiões afro-descendentes e apoiado por diversas outras instituições, tendo em vista acontecimentos recentes de invasões de templos e agressões aos seus representantes religiosos sofridas por estas entidades e feitas por pessoas desequilibradas.
Eu como pertencente a uma tradição de origem cigana, a Florescentia, estudiosa das religiosidades da terra, mais conhecidas como neo-paganismo e bastante ligada ao ceticismo como filosofia de vida, me senti um pouco rechaçada. Afinal, porquê é tão importante ter fé? Porque estas instituições não se uniram a outras religiões igualmente descaracterizadas frente ao catolicismo sub-reptício brasileiro e que são muito menos representativas?
Assim como toda idéia de liberdade, a liberdade de culto pressupõe a possibilidade de cultuar OU NÃO cultuar!
Em minha tradição, de base pagã, a fé é descartada como preceito e tudo é posto em seu devido estado, lugar e poder. Assim como no paganismo, não necessariamente se pressuponha a fé como virtude máxima. Para o cético, fé é xingamento.
Então, como ficamos nós, os neo-pagãos, os agnósticos, os céticos e os ateus? Não merecemos respeito e tolerância? Considerar como não merecedores de respeito ‘religioso’ os não religiosos ou os pertencentes a religiões verdadeiramente minoritárias, não seria uma forma às avessas de intolerância religiosa?
Temos observado, e no site do evento mostra, a intolerância ser praticada por pessoas. Mas e quando a intolerância é praticada por outras instituições?
Podemos imaginar que não foi uma pessoa que promoveu em 2007 uma campanha feita com outdoors, espalhados por toda a cidade de Niterói, conforme a foto abaixo, tirada da ponte Rio-Niterói.
Não foram as religiões afro-descendentes, por exemplo, que foram alvo de preconceito e intolerância feita pelo MV BRASIL, que no ano retrasado instituiu um ‘campanha nacional’ contra o Halloween, festa que tem origem na religião pagã, conforme se vê na foto.
Ambas as agressões intolerantes foram promovidas por instituições e passaram despercebidas da mídia como ato de fundamentalismo, confirmando publicamente a visão (nada velada) de que ter FÉ é sinônimo de ser gente. Como se o fato de não termos fé nos tornasse menos humano….
Essa é a mais furiosa onda que perdura na civilização humana a despeito das mais básicas leis fundamentais, da ética e de toda racionalidade, evolução e tecnicismo:
“O que não é igual é inimigo. Guerra ao inimigo!!”
Que haja paz na diversidade.
Eu não tenho fé.
Em homenagem à minha baba (avó) Floripes Hamoniviqs, Mestra Jardineira Anciã da Tradição Florescentia de origem Pagano-Tziganim, hoje com 104 anos e quem sempre ensinou que o outro não é nosso espelho.



1 comment
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Setembro 14, 2008 às 11:52 pm
Alysson Urbanski
Ótimo texto, hoje em dia (e creio que sempre foi assim) as pessoas dão muito valor às religioes e dão a elas um respeito fora do normal.
Penso que a religião deve ser respeitada da mesma forma como eu respeito a maneira de outra pessoa se vestir, ela pode estar horrível mas eu não tentarei obriga-la a se vestir como eu.
Como disse Stephen Henry Roberts: “Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender porque é que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá porque é que eu rejeito o seu.”
Quanto ao ‘protesto’: “Halloween é satanismo. Brasil, país cristão!”
Bom, eu pensei que vivessemos num Estado Laico…
Por isso concordo com o que você disse,
Eu não tenho fé.