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Estamos em setembro. E hoje é dia 8. Dia do meu aniversário.

Com preguiça olho para os vidros da janela e me encanto com os botões branquinhos da pitangueira e os pontinhos rosados e negros da amoreira. Estão pontilhados de cristais brilhantes do sereno e da chuva, pulverizadas em noite de lua crescente.

Me espreguiço. Olho o relógio. Perdi a hora da faculdade. Calço os chinelos azuis e já me levanto sem pressa. Almir Sater me vem à cabeça… “Ando devagar porque já tive pressa…”

O capim limão faz um lindo contraste com as rubras açucenas. Lá em baixo a mangueira também mostra-se exuberante a expor sem segredos a quantidade de frutos que teremos em dezembro. A gata se enrosca nos pés pedindo o de costume.Voltando os olhos ao jardim noto o adiantado da hora vendo as minhas onze horas multicoloridas que já estão se despedindo. Descubro pés de tomate que nasceram espontâneos. A aloé tombou de lado, cheia de folhas gordas e pesadas.

O coqueiro cresceu bastante neste inverno. Veja como a goiabeira está triste! Mas a poda lhe fará bem mais adiante, quando vier as flores e os frutos. E mais brotos da bananeira se esgueiram. Pena que só teremos frutos novamente no porvir.

Abro enfim a janela e o vento úmido e terroso acaricia a face num misto de odor, tato e prazer. O siguiriri e a cambaxirra cantando agudo, fazem festa alternadamente, tilintando entre o mamoeiro e a poça d’água. Já parece primavera. O galo canta, todo macho. Ouço a galinha cacarejar feliz. Sei o que eles andam fazendo. Será que hoje teremos ovos?

Da cozinha vem um cheiro atávico de café com cremely e canela com torradas francesas. Agilizo os movimentos, me vestindo com mais rapidez na intenção de colher destes sabores.

Paro por um momento. Fecho os olhos e penso. Em um segundo tudo aquilo que me veio aos olhos, sentidos e memória, se desfaz em brumas de vapor. A mente da gente é impressionante. Me volto pra realidade sentindo os pés descalços no piso frio e me pergunto: o que teria hoje para comemorar?

Completo tantos anos que não caberia em velas num bolo. Me sinto só no mundo, apesar de estar rodeada de familiares e amigos. Ideais? Tenho muitos, mas não saíram ainda do plano das idéias. Vontades, tenho tantas! Algumas indizíveis e por isso ficam só na vontade…

Sonhar também. Sonho muito. Até demais. Ás vezes acho que fabrico um mundo que não existe e que por ser só meu, jamais será pra todos.

Calço de novo os chinelos e com os pés aquecidos, percebo. Viver! Hoje eu comemoraria somente isso. Mais um dia em que acordo olhando pela janela, percebendo tudo aquilo que não entendo, mas que ainda assim, insisto em tentar entender, todos os dias.

Na babosa a teia de aranha cresce. No fim da rua, um cachorro insistente reclama.

E a chuva volta a cair….

A aranha tece...

A aranha tece...